10 fevereiro 2026

Da colônia à democracia: como nasceu o poder das Câmaras

 
A história do Legislativo brasileiro começou em 1532, na Vila de São Vicente (SP), com a fundação da primeira Câmara Municipal. No período colonial, essas instituições — conhecidas como "Conselhos" ou "Senados da Câmara" — possuíam uma autonomia que hoje pareceria estranha: elas acumulavam, simultaneamente, funções administrativas, judiciárias e legislativas. ¹Naquela época, o acesso ao poder era restrito aos chamados "homens bons" (proprietários de terras com alto status social). Essas Câmaras eram responsáveis por quase tudo, desde o abastecimento e obras públicas até julgamentos em primeira instância, sendo muitas vezes a única presença do Estado em vastos territórios.

Com a Constituição de 1824 e a Lei de 1º de Outubro de 1828, o cenário mudou. O Império retirou o poder judiciário das Câmaras, transformando-as em corporações estritamente administrativas. Um detalhe histórico curioso é que, até então, não existia a figura do Prefeito. O vereador mais votado assumia a presidência da Casa e acumulava as funções executivas da cidade. Esse modelo persistiu até que a Proclamação da República e as constituições posteriores estabelecessem a separação definitiva entre o Legislativo (Câmara) e o Executivo (Prefeitura).

No interior da Bahia, o processo de emancipação e organização seguiu esse rastro histórico. Em 1934, no Arraial de Dois Irmãos (atual Ubatã), o mascate Aníbal Azevedo foi nomeado membro do Conselho Consultivo da Vila de Rio Novo (hoje Ipiaú), exemplificando como as lideranças locais compunham a administração regional antes da plena autonomia dos municípios.

A grande virada ocorreu com a Constituição de 1988, que elevou o Município ao status de ente federativo autônomo. Hoje, as Câmaras de Vereadores possuem três funções essenciais que sustentam a democracia local:
Elaborar leis de interesse local e a Lei Orgânica do Município; exercer o controle externo da gestão financeira do Prefeito, com auxílio do Tribunal de Contas e processar e julgar infrações político-administrativas do Executivo ou de seus próprios membros.

A evolução das Câmaras reflete a própria transição do Brasil: de um modelo elitista e colonial para uma democracia plural. Sendo o ponto de poder mais próximo da população, o fortalecimento das Casas Legislativas é visto por especialistas como condição indispensável para uma gestão pública eficiente e para a manutenção do Estado Democrático de Direito.

Por Wesley Faustino; pesquisador, historiador e escritor. Especialista em Gestão Pública Municipal e Gestão Ambiental e ex-vice-prefeito de Ubata.