06 agosto 2014

Artigo: O prefeito e os jumentos

Por: Paulo Cabral Tavares - advogado

Eu trabalhava em Ipiaú, como chefe do escritório da Coelba, nos idos dos anos 1960. Implantávamos a rede de energia elétrica na cidade quando eclodiu a revolução. Na época muitos de nós torcíamos pela implantação de uma república socialista. Ainda bem que me curei a tempo daquela bobagem.

Sem água encanada, Ipiaú era abastecida com água trazida por jegues em carotes. Era uma confusão. Os jegues invadiam os jardins, o da Praça Ruy Barbosa, principal Praça de Ipiaú, tinha sido recém construído e os animais comiam as plantas o que era motivo de grande reclamação por parte da população. O prefeito era Dr. Euclides que fez uma grande administração e levou Ipiaú ao cenário nacional, ganhando o título de Município Modelo entre todos os municípios do Brasil. Em uma medida extrema mandou cercar o jardim e decretou liberdade para os jegues. Apesar de ser assumidamente comunista e perseguido pela revolução ganhou o prêmio de melhor prefeito do Brasil.

Em Ibirataia o fenômeno era o mesmo. A cidade era abastecida de agua pelos jumentos. O fato é contado por Euclides Neto em seu livro “O Prefeito, os Jumentos e a Revolução”. E o seu personagem principal José dos Passos Prazeres foi um grande amigo e irmão que tive. Muitos jegues soltos na cidade eram apreendidos e recolhidos ao que se chamava na época de “curral do conselho”. Mas muitas pessoas pobres viviam de transportar água para as casas e os jegues eram o seu sustento. Assim, o prefeito prendia num dia e soltava no outro a pedido destas pessoas.

Ocorria que os jegues ofereciam um espetáculo não aceito pelas famílias, principalmente as famílias religiosas. Na época principalmente católicos. Os jegues cruzavam em todo lugar. Até na escadaria da Igreja de São José, padroeiro de Ibirataia.

José dos Passos Prazeres, era o administrador da cidade que havia sido emancipada recentemente, enquanto era providenciada a eleição do primeiro   prefeito. E a pressão em cima dele era grande demais. Assim prendia num dia e soltava no outro e a libidinagem dos jegues corria solta. As famílias reclamavam se os jegues estivessem soltos e do outro lado, quando eram presos, os aguadeiros vinham reclamar do administrador. José dos Passos Prazeres se utilizou do recurso heroico. Mandou castrar todos os jegues da cidade.

Dr. Noé Bonfim, emérito Delegado da Maçonaria da região, brincalhão e gozador fez uma quadrinha que caiu no gosto popular e matou a futura candidatura a prefeito de Zé Prazeres:

“Oh! JOSÉ és tão malvado
Se tens complexo não negues,
Por que atrapalhas teus PASSOS,
Tirando os PRAZERES dos jegues?”

Com o trocadilho, os adversários caíram em cima de Zé Prazeres e ele realmente perdeu a eleição. Não que tenha sido por causa da quadrinha, mas que ajudou, ajudou.
Mas Noé Bonfim, também recebeu o troco, em uma resposta de um morador de Ibirataia que escreveu:

“Oh! NOÉ também és malvado,
Se és o da Arca não negues,
Se não concordas com a medida
Dê outro BONFIM aos jegues".

Não sou saudosista, mas era uma época em que a gente vivia sem a violência de hoje, sem drogas, sem tantos problemas que vivemos agora. E a política era mais romântica, mais idealista e se permitiam brincadeiras deste tipo. Éramos tão felizes e não sabíamos.
                                 
Ubatã, 10 de julho de 2014
Paulo Cabral Tavares