Por: Paulo Cabral Tavares - advogado
Eu trabalhava em
Ipiaú, como chefe do escritório da Coelba, nos idos dos anos 1960. Implantávamos
a rede de energia elétrica na cidade quando eclodiu a revolução. Na época
muitos de nós torcíamos pela implantação de uma república socialista. Ainda bem
que me curei a tempo daquela bobagem.
Sem água
encanada, Ipiaú era abastecida com água trazida por jegues em carotes. Era uma
confusão. Os jegues invadiam os jardins, o da Praça Ruy Barbosa, principal
Praça de Ipiaú, tinha sido recém construído e os animais comiam as plantas o
que era motivo de grande reclamação por parte da população. O prefeito era Dr.
Euclides que fez uma grande administração e levou Ipiaú ao cenário nacional,
ganhando o título de Município Modelo entre todos os municípios do Brasil. Em
uma medida extrema mandou cercar o jardim e decretou liberdade para os jegues.
Apesar de ser assumidamente comunista e perseguido pela revolução ganhou o
prêmio de melhor prefeito do Brasil.
Em Ibirataia o
fenômeno era o mesmo. A cidade era abastecida de agua pelos jumentos. O fato é
contado por Euclides Neto em seu livro “O Prefeito, os Jumentos e a Revolução”.
E o seu personagem principal José dos Passos Prazeres foi um grande amigo e
irmão que tive. Muitos jegues soltos na cidade eram apreendidos e recolhidos ao
que se chamava na época de “curral do conselho”. Mas muitas pessoas pobres
viviam de transportar água para as casas e os jegues eram o seu sustento.
Assim, o prefeito prendia num dia e soltava no outro a pedido destas pessoas.
Ocorria que os
jegues ofereciam um espetáculo não aceito pelas famílias, principalmente as
famílias religiosas. Na época principalmente católicos. Os jegues cruzavam em
todo lugar. Até na escadaria da Igreja de São José, padroeiro de Ibirataia.
José dos Passos
Prazeres, era o administrador da cidade que havia sido emancipada recentemente,
enquanto era providenciada a eleição do primeiro prefeito. E a pressão em cima dele era
grande demais. Assim prendia num dia e soltava no outro e a libidinagem dos
jegues corria solta. As famílias reclamavam se os jegues estivessem soltos e do
outro lado, quando eram presos, os aguadeiros vinham reclamar do administrador.
José dos Passos Prazeres se utilizou do recurso heroico. Mandou castrar todos
os jegues da cidade.
Dr. Noé Bonfim,
emérito Delegado da Maçonaria da região, brincalhão e gozador fez uma quadrinha
que caiu no gosto popular e matou a futura candidatura a prefeito de Zé
Prazeres:
“Oh! JOSÉ és tão
malvado
Se tens complexo
não negues,
Por que
atrapalhas teus PASSOS,
Tirando os
PRAZERES dos jegues?”
Com o
trocadilho, os adversários caíram em cima de Zé Prazeres e ele realmente perdeu
a eleição. Não que tenha sido por causa da quadrinha, mas que ajudou, ajudou.
Mas Noé Bonfim,
também recebeu o troco, em uma resposta de um morador de Ibirataia que escreveu:
“Oh! NOÉ também
és malvado,
Se és o da Arca
não negues,
Se não concordas
com a medida
Dê outro BONFIM
aos jegues".
Não sou
saudosista, mas era uma época em que a gente vivia sem a violência de hoje, sem
drogas, sem tantos problemas que vivemos agora. E a política era mais
romântica, mais idealista e se permitiam brincadeiras deste tipo. Éramos tão
felizes e não sabíamos.
Ubatã, 10 de
julho de 2014
Paulo Cabral Tavares