04 agosto 2014

Artigo: Ao meu amigo Felipão

Por: Paulo Cabral Tavares - advogado

Eu sei que você não fez por mal. Não. Eu sei que você acreditava que nós íamos ganhar a copa em casa – “é nossa obrigação ganhar a copa jogando em casa”, você disse um dia. Eu sei que você acreditava e nos fez acreditar que tínhamos um grande time. E não tínhamos.

Eu sei também que você nos encheu de esperança. Da esperança de uma grande vitória. De nos apresentarmos como grandes campeões. E embora não estivéssemos fisicamente em campo é como se estivéssemos. Porque de nossa cadeira na sala, nós estávamos em campo. Driblando, chutando a gol, dando aquele passe, trombando os adversários com furor, defendendo as bolas que chutavam para o nosso gol. Sofrendo, gritando, comemorando cada grande jogada. Cada gol feito.

O seu mal foi nos vender a esperança. O seu mal foi acreditar tanto. E nos fazer acreditar tanto.
Em 2002 você também nos fez acreditar que tínhamos um grande time. Apesar de contrariar o Brasil inteiro não levando Romário no auge da sua forma, você apostou em grandes craques que foram ou vieram a ser escolhidos melhores do mundo pela FIFA. Você tinha Ronaldo Fenômeno, embora “baleado” por uma contusão de grande porte, ainda era, e em campo provou isso, um grande jogador. Você tinha Ronaldinho Gaúcho em plena forma e regulado por você. E tinha Rivaldo, três grandes que foram escolhidos em sua época como melhores do mundo pela FIFA. Mas hoje, tirando Neymar, não tivemos e nem vamos ter no nosso elenco ninguém que possa vir a ganhar o título de melhor do mundo escolhido da FIFA.

Nós brasileiros sabemos que você é um grande técnico e que fez o melhor que pôde para ganhar esta copa para nós. Sem um grande time não dá.

Vicente Feola que não era grande coisa como técnico, ganhou tudo, sendo técnico do Santos com Pelé, Coutinho, Zito, Pepe, Gilmar, Carlos Alberto... E foi campeão do mundo com o Santos por duas vezes e uma vez, a primeira, com a seleção brasileira, com Garrincha, Didi, Vavá, Pelé e os outros que todo mundo conhece. Quando a pressão apertava em cima dele, ele pegava no sono na reunião, dormia e acalmava as coisas. Mas tinha um grande time de futebol.

A Alemanha nos humilhou dentro do campo. Mostrou o futebol que nós pensávamos que era nosso. Mas podia ter perdido a final para a Argentina. E quase perdeu. Se a Argentina ganhasse não estaríamos hoje exaltando a organização e a programação da Alemanha. E a desorganização da Argentina é igual à nossa. Inclusive na corrupção e na bandalheira que antecipou a nossa copa.

Mas aqui é assim mesmo. Mesmo ficando entre os melhores do mundo, para o brasileiro só interessa ser o melhor do mundo. Ser campeão. Segundo, terceiro ou quarto lugar não valem nada. E você que foi exaltado nos primeiros jogos, mesmo com as vitórias claudicantes que a gente desculpava com a antiga desculpa que na copa não existe jogo fácil, passou a ser o responsável por tudo. Inclusive pela derrota e foi escalado para receber as vaias e as críticas. Nós sabemos, no entanto, que você é duro na queda.

Agora nós temos de pensar em outras copas. A da educação em que estamos na rabeira atrás de países muito pouco desenvolvidos e ocupamos um dos últimos lugares. A da corrupção onde somos quase campeões mundiais. A da segurança, onde até aqui na minha terra, uma cidade pequeninha, está se matando quase um por dia. A da saúde onde nossos irmãos menos privilegiados morrem nas filas dos hospitais. A do IDH – índice de desenvolvimento humano – cuja colocação nos humilha mais do que os fatídicos 7x1.

Ligue não, Felipão. Você lutou honradamente. Fez o que pôde. Deu o seu melhor. Sofreu também, talvez mais do que nós. Não deu, a culpa não foi sua. Acredite. E levante a cabeça. A vida segue e você alcançará outras vitórias na vida, tenho certeza.

Olha, eu fiz uma brincadeira. Comprei um burro e coloquei nele o seu nome de guerra. Não o nome de Felipe Scolari, o homem, o pai de família. Mas Felipão, o personagem. Não acredite que eu quis lhe humilhar. Foi como uma homenagem. É uma beleza de animal, inclusive “inteligente” segundo meus empregados. Desculpa, velho.

Se lhe servir de consolo rebatizei o meu burro. De agora em diante passou a se chamar de Dunga, também o personagem, desta vez a pedido do pessoal da fazenda...
                            
  Ubatã, 29 de julho de 2014.

 Paulo Cabral Tavares