Por: Paulo Cabral Tavares - advogado
Eu sei que você
não fez por mal. Não. Eu sei que você acreditava que nós íamos ganhar a copa em
casa – “é nossa obrigação ganhar a copa jogando em casa”, você disse um dia. Eu
sei que você acreditava e nos fez acreditar que tínhamos um grande time. E não
tínhamos.
Eu sei também
que você nos encheu de esperança. Da esperança de uma grande vitória. De nos
apresentarmos como grandes campeões. E embora não estivéssemos fisicamente em
campo é como se estivéssemos. Porque de nossa cadeira na sala, nós estávamos em
campo. Driblando, chutando a gol, dando aquele passe, trombando os adversários
com furor, defendendo as bolas que chutavam para o nosso gol. Sofrendo,
gritando, comemorando cada grande jogada. Cada gol feito.
O seu mal foi
nos vender a esperança. O seu mal foi acreditar tanto. E nos fazer acreditar
tanto.
Em 2002 você
também nos fez acreditar que tínhamos um grande time. Apesar de contrariar o
Brasil inteiro não levando Romário no auge da sua forma, você apostou em
grandes craques que foram ou vieram a ser escolhidos melhores do mundo pela
FIFA. Você tinha Ronaldo Fenômeno, embora “baleado” por uma contusão de grande
porte, ainda era, e em campo provou isso, um grande jogador. Você tinha
Ronaldinho Gaúcho em plena forma e regulado por você. E tinha Rivaldo, três
grandes que foram escolhidos em sua época como melhores do mundo pela FIFA. Mas
hoje, tirando Neymar, não tivemos e nem vamos ter no nosso elenco ninguém que
possa vir a ganhar o título de melhor do mundo escolhido da FIFA.
Nós brasileiros
sabemos que você é um grande técnico e que fez o melhor que pôde para ganhar
esta copa para nós. Sem um grande time não dá.
Vicente Feola
que não era grande coisa como técnico, ganhou tudo, sendo técnico do Santos com
Pelé, Coutinho, Zito, Pepe, Gilmar, Carlos Alberto... E foi campeão do mundo
com o Santos por duas vezes e uma vez, a primeira, com a seleção brasileira,
com Garrincha, Didi, Vavá, Pelé e os outros que todo mundo conhece. Quando a
pressão apertava em cima dele, ele pegava no sono na reunião, dormia e acalmava
as coisas. Mas tinha um grande time de futebol.
A Alemanha nos
humilhou dentro do campo. Mostrou o futebol que nós pensávamos que era nosso.
Mas podia ter perdido a final para a Argentina. E quase perdeu. Se a Argentina
ganhasse não estaríamos hoje exaltando a organização e a programação da
Alemanha. E a desorganização da Argentina é igual à nossa. Inclusive na
corrupção e na bandalheira que antecipou a nossa copa.
Mas aqui é assim
mesmo. Mesmo ficando entre os melhores do mundo, para o brasileiro só interessa
ser o melhor do mundo. Ser campeão. Segundo, terceiro ou quarto lugar não valem
nada. E você que foi exaltado nos primeiros jogos, mesmo com as vitórias
claudicantes que a gente desculpava com a antiga desculpa que na copa não
existe jogo fácil, passou a ser o responsável por tudo. Inclusive pela derrota
e foi escalado para receber as vaias e as críticas. Nós sabemos, no entanto,
que você é duro na queda.
Agora nós temos
de pensar em outras copas. A da educação em que estamos na rabeira atrás de
países muito pouco desenvolvidos e ocupamos um dos últimos lugares. A da
corrupção onde somos quase campeões mundiais. A da segurança, onde até aqui na
minha terra, uma cidade pequeninha, está se matando quase um por dia. A da
saúde onde nossos irmãos menos privilegiados morrem nas filas dos hospitais. A
do IDH – índice de desenvolvimento humano – cuja colocação nos humilha mais do
que os fatídicos 7x1.
Ligue não,
Felipão. Você lutou honradamente. Fez o que pôde. Deu o seu melhor. Sofreu
também, talvez mais do que nós. Não deu, a culpa não foi sua. Acredite. E
levante a cabeça. A vida segue e você alcançará outras vitórias na vida, tenho
certeza.
Olha, eu fiz uma
brincadeira. Comprei um burro e coloquei nele o seu nome de guerra. Não o nome
de Felipe Scolari, o homem, o pai de família. Mas Felipão, o personagem. Não
acredite que eu quis lhe humilhar. Foi como uma homenagem. É uma beleza de
animal, inclusive “inteligente” segundo meus empregados. Desculpa, velho.
Se lhe servir de
consolo rebatizei o meu burro. De agora em diante passou a se chamar de Dunga,
também o personagem, desta vez a pedido do pessoal da fazenda...
Ubatã, 29 de
julho de 2014.
Paulo Cabral Tavares