Por: Paulo Cabral Tavares - advogado
No meu tempo de
menino, quando não existia televisão, celulares, nem ao menos telefone, o rádio
era incipiente, quer dizer estava no começo e as novelas passavam no rádio,
também não existiam trios elétricos e as festas de Ubatã, antigo Dois Irmãos,
eram “abrilhantadas” por filarmônicas, que eram basicamente uma banda de
instrumentos de sopro. Devo dizer que eram uma banda completa com quase todos
os instrumentos de sopro. As bandas equivaliam ao que hoje são os trios
elétricos.
Armava-se um
tablado no meio da praça onde hoje é o fórum da cidade e ali as bandas tocavam
e era feito o baile, principalmente nas festas da padroeira. As bandas que
rompiam a madrugada, em alvorada, na festa da padroeira se constituem em uma
lembrança tão forte que até hoje quando vejo e ouço uma banda tocar me emociona
de verdade. Ainda me lembro de acordar com os acordes das bandas, no frio da
madrugada, para ir com minha mãe, para a procissão da festa da padroeira.
E nós meninos
tietávamos as bandas. Num destes eventos, uma banda que me parece era de
Cachoeira, a Euterpe Cachoeirense, se não me falha a memória, ficou hospedada
na pensão de D. Antonia, mãe de Enos Gomes, onde hoje é o escritório de
contabilidade de Cica. E eu e outros
meninos, inclusive o próprio Enos, tietando a banda, descobrimos uma coisa que
nos causou admiração. Por acaso descobrimos que a caixa em que Dionísio, um dos
músicos, tocava, era furada em baixo. A gente sabia, já tocávamos na escola em
caixas e tambores para os desfiles de sete de setembro, que uma caixa furada
não fazia o som adequado, ou não fazia quase nenhum som e por isso, não servia
para nada numa banda de música. E começamos a “fazer galera” com Dionísio.
Era um negro
baixinho, cabelo em carapinha, já bastante esbranquiçado, muito simpático,
humilde, gente boa, como se costuma dizer. Quando um grupo de nós estava
“caçoando” de Dionísio, o Maestro nos flagrou. O maestro destas bandas tinha um
poder quase absoluto sobre tudo o que ali se passava. E, geralmente, era temido
e muito respeitado. E percebeu a nossa gozação com Dionísio. E nos chamou a um
canto e nos contou a história do instrumento e de seu tocador.
Ele nos disse
que Dionísio era um apaixonado pela música. E pessoa humilde, como, aliás, eram
todos os músicos que faziam parte da filarmônica, vivia em redor da sede da
Euterpe. Varria a sede, lustrava os instrumentos de metal e fazia aquilo sem
remuneração e com amor de comover. E o maestro quis aproveitá-lo como músico. E
o treinou em todos os instrumentos. Isto é, tentou treinar Dionísio, porque
este era um caso raro de falta de talento para a música, apesar de sua paixão.
Até os pratos que teoricamente eram os instrumentos mais fáceis de tocar,
Dionísio saia do compasso, bati-os na
hora errada, até que o maestro chegou a desistir de transformar Dionísio em um
musico da banda.
Quando estava
para desistir, um dos outros músicos que tocava trombone, disse, em tom de
gozação:
- Dá a ele uma
caixa furada...
E o maestro, em
sua sabedoria, resolveu isto mesmo: dar a Dionísio uma caixa furada que no meio
da banda não atrapalharia em nada e realizaria o sonho do velho sonhador de um
dia fazer parte da banda. E deu a Dionísio uma caixa furada e o colocou no meio
da banda para que realmente não atrapalhasse em nada. E mandou fazer o
uniforme de Dionísio. A farda de marinheiro, tradicional entre as bandas, toda
de branco, com botões dourados, quepe e tudo o que tinha direito. Ele já tinha
perdido a esperança de um dia envergar o uniforme da Euterpe.
E lá se foi
Dionísio vestido todo de branco, na sua farda engomada, com seu quepe de
marinheiro, botões dourados, no meio da banda, tocando o seu instrumento. O
Maestro nos disse que nunca viu um músico seu desfilar com tanto orgulho, com
tanto garbo. E nos confessou que quando Dionísio passou no desfile perto de sua
família que estava lá para o ver desfilar pela primeira vez e o aplaudir, o
maestro disse que viu duas lágrimas rolarem pelo rosto do velho “músico”. E que
se pudesse retratar uma pessoa realizando o seu sonho, esta pessoa seria
Dionísio no dia do seu primeiro desfile. E de todos os
outros desfiles, tocando a sua caixa furada, mas realizando o seu sonho de
desfilar na sua Euterpe, junto com os seus companheiros de banda. Nunca mais nós
bulimos com Dionísio.
Ubatã, 27 de
janeiro de 2014
Paulo Cabral
Tavares