28 janeiro 2014

Artigo: Dionísio!

Por: Paulo Cabral Tavares - advogado

No meu tempo de menino, quando não existia televisão, celulares, nem ao menos telefone, o rádio era incipiente, quer dizer estava no começo e as novelas passavam no rádio, também não existiam trios elétricos e as festas de Ubatã, antigo Dois Irmãos, eram “abrilhantadas” por filarmônicas, que eram basicamente uma banda de instrumentos de sopro. Devo dizer que eram uma banda completa com quase todos os instrumentos de sopro. As bandas equivaliam ao que hoje são os trios elétricos.

Armava-se um tablado no meio da praça onde hoje é o fórum da cidade e ali as bandas tocavam e era feito o baile, principalmente nas festas da padroeira. As bandas que rompiam a madrugada, em alvorada, na festa da padroeira se constituem em uma lembrança tão forte que até hoje quando vejo e ouço uma banda tocar me emociona de verdade. Ainda me lembro de acordar com os acordes das bandas, no frio da madrugada, para ir com minha mãe, para a procissão da festa da padroeira.

E nós meninos tietávamos as bandas. Num destes eventos, uma banda que me parece era de Cachoeira, a Euterpe Cachoeirense, se não me falha a memória, ficou hospedada na pensão de D. Antonia, mãe de Enos Gomes, onde hoje é o escritório de contabilidade de Cica. E eu e outros meninos, inclusive o próprio Enos, tietando a banda, descobrimos uma coisa que nos causou admiração. Por acaso descobrimos que a caixa em que Dionísio, um dos músicos, tocava, era furada em baixo. A gente sabia, já tocávamos na escola em caixas e tambores para os desfiles de sete de setembro, que uma caixa furada não fazia o som adequado, ou não fazia quase nenhum som e por isso, não servia para nada numa banda de música. E começamos a “fazer galera” com Dionísio.

Era um negro baixinho, cabelo em carapinha, já bastante esbranquiçado, muito simpático, humilde, gente boa, como se costuma dizer. Quando um grupo de nós estava “caçoando” de Dionísio, o Maestro nos flagrou. O maestro destas bandas tinha um poder quase absoluto sobre tudo o que ali se passava. E, geralmente, era temido e muito respeitado. E percebeu a nossa gozação com Dionísio. E nos chamou a um canto e nos contou a história do instrumento e de seu tocador.

Ele nos disse que Dionísio era um apaixonado pela música. E pessoa humilde, como, aliás, eram todos os músicos que faziam parte da filarmônica, vivia em redor da sede da Euterpe. Varria a sede, lustrava os instrumentos de metal e fazia aquilo sem remuneração e com amor de comover. E o maestro quis aproveitá-lo como músico. E o treinou em todos os instrumentos. Isto é, tentou treinar Dionísio, porque este era um caso raro de falta de talento para a música, apesar de sua paixão. Até os pratos que teoricamente eram os instrumentos mais fáceis de tocar, Dionísio saia do compasso,  bati-os na hora errada, até que o maestro chegou a desistir de transformar Dionísio em um musico da banda.

Quando estava para desistir, um dos outros músicos que tocava trombone, disse, em tom de gozação:
- Dá a ele uma caixa furada...

E o maestro, em sua sabedoria, resolveu isto mesmo: dar a Dionísio uma caixa furada que no meio da banda não atrapalharia em nada e realizaria o sonho do velho sonhador de um dia fazer parte da banda. E deu a Dionísio uma caixa furada e o colocou no meio da banda para que realmente não atrapalhasse em nada. E mandou fazer o uniforme de Dionísio. A farda de marinheiro, tradicional entre as bandas, toda de branco, com botões dourados, quepe e tudo o que tinha direito. Ele já tinha perdido a esperança de um dia envergar o uniforme da Euterpe.

E lá se foi Dionísio vestido todo de branco, na sua farda engomada, com seu quepe de marinheiro, botões dourados, no meio da banda, tocando o seu instrumento. O Maestro nos disse que nunca viu um músico seu desfilar com tanto orgulho, com tanto garbo. E nos confessou que quando Dionísio passou no desfile perto de sua família que estava lá para o ver desfilar pela primeira vez e o aplaudir, o maestro disse que viu duas lágrimas rolarem pelo rosto do velho “músico”. E que se pudesse retratar uma pessoa realizando o seu sonho, esta pessoa seria Dionísio no dia do seu primeiro desfile. E de todos os outros desfiles, tocando a sua caixa furada, mas realizando o seu sonho de desfilar na sua Euterpe, junto com os seus companheiros de banda. Nunca mais nós bulimos com Dionísio.

Ubatã, 27 de janeiro de 2014
 Paulo Cabral Tavares