09 maio 2013

Artigo: A vida que segue

Paulo Cabral Tavares, advogado
Por: Paulo Cabral

Tem dia que a gente acorda com um desejo de estar longe de tudo. Do dia a dia enervante, das pequenas preocupações, dos aborrecimentos cotidianos e da chatice de ter que tocar a vida tendo de conviver com situações que a gente não gostaria nunca ter de enfrentar. Mas não há como se livrar num passe de mágica destas chateações diárias que nos esperam, por mais boa vontade e desejo que a gente tenha demudar um pouco as coisas.

Vale dizer também que temos as alegrias diárias que ficam por conta das exceções. Mas que de uma forma ou de outra nos consolam. Se fosse possível bem que a gente gostaria de multiplicar estas e minimizar as chateações. Não que seja uma acomodação ou omissão, mas a gente tem que conviver com isto e tocar a vida. Buscando melhorar aqui e ali, rompendo às vezes com alguns padrões e paradigmas já assentados que não tem jeito nem conserto. Tem uma frase, ou uma oração, atribuída a São Francisco de Assis, santo que deve nos inspirar a todos, uma vez que inspirou até o novo papa, que diz: ”Senhor dai-me força para mudar o que deve ser mudado; resignação para aceitar o que não pode ser mudado e sabedoria para distinguir uma coisa da outra”.

O diabo às vezes é que tem dia que a gente pensa que deveria mudar tudo. Ir embora pra Pasárgada (“Vou-me embora pra Pasárgada; Lá sou amigo do Rei; Lá tenho a mulher que quero, na cama que escolherei – Manoel Bandeira). Viver num paraíso onde não seja preciso pagar contas, dar satisfações, se preocupar com isto ou aquilo, ou seja, viver pelo menos um período de eternas (enquanto durarem) férias em que a preocupação maior seja o horário de ir para a praia ou providenciar a moqueca que vai comer meio dia, ou às quatro, cinco horas da tarde, sem compromisso e sem horário para nada. Ou que a cerveja seja a nossa preferida e que esteja estupidamente gelada bem ao nosso gosto brasileiro.

De minha parte, como escrevi um dia:
“Estou morrendo de vontade
De voltar pra minha casa
Lá em Dois Irmãos de Cima,
Vizinha de Vovó Tonha,
Pra ouvir suas estórias
E me aninhar em seus braços
Com receio dos gigantes dasestórias
E adormecer sorrindo...”

Eu não quero nem devo ter uma vida de pura mordomia. Espero nunca me aposentar. Batalhar até aos últimos dias, pela sobrevivência, morrendo no cumprimento do dever, pois, ficar sem ter compromisso e sem trabalhar para sempre é sem qualquer dúvida uma chatice. Mas, bem que mereço ter um pouquinho de férias da rotina do dia a dia, e somar somente alegrias e satisfações, mesmo que seja por curto tempo.

Ubatã, 9 de maio de 2013.
Paulo Cabral Tavares